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O erro de tratar o primeiro diploma como carreira final

Alfredo Moreira Filho
Alfredo Moreira Filho

No entendimento de Alfredo Moreira Filho, especializado em gestão empresarial, poucas decisões pesam tanto quanto a escolha do primeiro curso superior, e poucas são tão mal interpretadas. A contradição está justamente aí: o diploma que abre a primeira porta raramente define onde a carreira vai terminar, mas muita gente o trata como sentença. O resultado são profissionais que recusam oportunidades por não verem ligação imediata com a própria formação.

Esse equívoco se manifesta de várias formas, algumas sutis. Se você está diante de uma mudança de área, ou aconselha alguém que está, os erros descritos a seguir merecem um olhar atento antes de qualquer decisão.

Confundir formação com destino

Um curso superior treina uma forma de pensar: como diagnosticar problemas, buscar informação confiável e testar soluções. O conteúdo técnico envelhece; o método permanece. Quem entende isso passa a enxergar o diploma como ponto de partida, e não como fronteira do que pode fazer profissionalmente.

A trajetória relatada por Alfredo Moreira em livro ilustra esse movimento. Formado em agronomia em Viçosa, ele passou pela extensão rural, pela diretoria de uma central de abastecimento em Manaus, pela presidência de uma empresa estadual de fomento agropecuário, pela gerência de um projeto de colonização no Pará e pela representação institucional de construtoras em Brasília, antes de empreender em serviços de tecnologia ao lado dos filhos.

Desprezar o que a formação técnica transfere

Mudar de área não significa começar do zero. Um agrônomo lida com perecibilidade, sazonalidade, crédito rural, logística em regiões remotas e negociação com produtores. Todas essas competências reaparecem, com outro nome, na gestão de empresas de qualquer setor. O erro é descartar essa bagagem por achar que ela pertence só ao campo.

Como sublinha Alfredo Moreira Filho ao recordar sua passagem pela central de abastecimento de Manaus, cadastrar feirantes espalhados pela cidade e convencê-los a se transferir para um novo entreposto exigiu mais negociação do que conhecimento agronômico. A maioria resistia à mudança. Foi a leitura do comportamento dos comerciantes, e não uma fórmula técnica, que tornou a transferência possível.

Parar de estudar depois de formado

Outro engano recorrente é tratar a formatura como linha de chegada. Em mercados que mudam rápido, o conhecimento acumulado na graduação perde validade em poucos anos. Quem não volta a estudar fica preso a soluções que funcionavam num contexto que já não existe, e percebe isso tarde.

Alfredo Moreira Filho recorda o conselho recebido de um agrônomo mais experiente antes de partir para a Amazônia: rasgar o diploma ao chegar e começar a estudar de novo, adaptando o que aprendera ao novo lugar. Anos depois, já em Brasília, ele cursou gestão de negócios na Universidade de São Paulo (USP). O diploma inicial continuou valendo; apenas deixou de ser o único.

Mudar de área sem cuidar da continuidade

Toda transição de carreira carrega algo que não deve ser perdido: reputação, rede de relacionamentos e credibilidade construída ao longo dos anos. Mudar de setor sem preservar esses ativos equivale a recomeçar desnecessariamente. Para quem se torna empresário, a continuidade ganha ainda outra dimensão, que é o futuro do próprio negócio.

Na ponderação de Alfredo Moreira Filho, o projeto empresarial construído com a família caminha para um processo de sucessão, com profissionalização da governança e prevenção de divergências entre herdeiros. Esse cenário reforça a ideia de que uma carreira bem conduzida não se mede pelo diploma que abriu a primeira porta, mas pela capacidade de atravessar várias delas sem perder a coerência.