O engenheiro civil Márcio André Savi contribui para a contextualização de uma mudança no planejamento urbano: a drenagem não precisa depender exclusivamente de canalizações e grandes estruturas de concreto. A infraestrutura verde, por sua vez, combina vegetação, solo e espaços permeáveis, visando reduzir o escoamento e tratar parte da água da chuva.
O conceito em questão não exclui galerias, reservatórios ou obras convencionais. Esse recurso amplia as alternativas à disposição dos municípios que enfrentam problemas como alagamentos, impermeabilização crescente e poluição carregada pelas águas pluviais. A inovação reside na distribuição de funções hidráulicas por diferentes pontos da cidade.
Essa abordagem requer planejamento. A drenagem em áreas como praças, calçadas permeáveis ou jardins de chuva somente é eficaz quando tais estruturas são adequadamente dimensionadas para as condições locais e recebem a manutenção necessária. O benefício não decorre da aparência verde, mas da capacidade de armazenar, infiltrar, retardar ou filtrar o escoamento.
Como a infraestrutura verde atua na drenagem urbana?
Quando a chuva atinge uma superfície impermeável, a água escoa rapidamente para sarjetas, bocas de lobo e galerias. Em uma área com vegetação densa ou permeável, uma parcela desse volume pode infiltrar no solo, ser retida temporariamente ou passar por camadas que reduzem a concentração de poluentes antes de alcançar os corpos d’água.
Em virtude do papel da engenharia de transformar soluções baseadas na natureza em infraestrutura mensurável, Márcio André Savi participa do debate. É imprescindível que o projeto contemple a análise da declividade, do tipo de solo, da intensidade das chuvas, do espaço disponível e da conexão com a rede existente. A ausência desses dados pode comprometer a capacidade da intervenção ou gerar problemas de manutenção.

A infraestrutura verde também pode desempenhar funções urbanas simultâneas. Além de contribuir para o controle da água, áreas arborizadas e espaços permeáveis podem proporcionar melhorias no conforto térmico, aprimorar a paisagem e favorecer a preservação ambiental. É importante ressaltar que esses efeitos não substituem a avaliação hidráulica, mas ampliam o retorno de uma mesma intervenção.
O que os municípios devem avaliar antes de implantar?
O primeiro passo é identificar o problema predominante. Em determinadas situações, pode ser necessário realizar a retenção temporária de uma área, a infiltração em outra, e o tratamento do escoamento antes do lançamento em uma terceira. A escolha da solução deve seguir o comportamento da bacia, e não apenas a disponibilidade de um modelo pronto. O mapeamento de pontos baixos, áreas de contribuição e rotas de emergência auxilia na dimensionação de cada intervenção e evita a transferência do escoamento para outro trecho.
A manutenção deve receber a mesma atenção dedicada ao projeto. Os jardins de chuva devem permanecer isentos de sedimentos e resíduos. Ademais, os pavimentos permeáveis podem apresentar perda de desempenho quando seus vazios ficam obstruídos. Por sua vez, as áreas vegetadas exigem manejo compatível com o clima e o uso do espaço. Nesse cenário, é imprescindível ressaltar que a infraestrutura ambiental depende de operação contínua, como enfatizou Márcio André Savi.
Além disso, é imprescindível integrar a solução ao plano de drenagem, ao zoneamento e aos contratos de conservação urbana. Indicadores como volume retido, tempo de escoamento, frequência de manutenção e ocorrência de alagamentos ajudam a verificar o desempenho. Na ausência de acompanhamento, o município não possui dados que permitam concluir se a medida reduziu o risco ou simplesmente alterou sua aparência.
A cidade resiliente começa no desenho do território
Em última análise, a infraestrutura verde não deve ser tratada como decoração urbana nem como resposta isolada para eventos extremos. O valor do solo é evidenciado quando este faz parte de uma rede de espaços públicos, áreas de preservação, sistemas de drenagem e regras de ocupação do solo.
O resultado depende da combinação entre escala local e planejamento territorial. Além disso, essa integração facilita a priorização de investimentos, pois relaciona o risco, a ocupação do solo, o custo de manutenção e o benefício esperado para cada área.
Segundo Márcio André Savi, a premissa fundamental consiste em alinhar o desenvolvimento urbano, a eficiência operacional e a preservação ambiental. A solução ideal deve abranger tanto obras tradicionais quanto mecanismos naturais, assegurando que cada componente tenha uma função claramente definida, manutenção prevista e desempenho monitorado ao longo do tempo.










